sábado, 26 de junho de 2021

Tudo é espiritual, até dinheiro (pte.1) - I Tm 6.6-21

Nestes tempos de pandemia muitas coisas tem aflorado. Alguns dizem que perdemos o poder de compra, outros, que a economia prevê aumento do PIB. O paradoxo é que tudo está caro ao passo que o dólar cai e o PIB sobe. E porquê tudo está mais caro, justamente no tempo de pandemia, onde deveria estar acessível principalmente aos mais necessitados. Porém, quem tem poder aquisitivo fez seu pé-de-meia, ou seja, dispostos a pagar, fizeram estoque para que sua base de segurança fosse maior. Faltou no mercado produtos básicos, o que encarece para os mais pobres. 

Como o arroz, alimento básico do brasileiro, sobe? Quem organiza os preços? O mercado. Os insumos hospitalares e alimentos sobem de preço, inclusive a vacina, que dá muito lucro em detrimento da vida. Em tempos de calamidade global (pandemia) todos deveriam fazer um esforço para garantir a manutenção da vida - mas é feito o contrário. Os ricos (1%), pela falta de alimentos ficam mais ricos (7%, em média), e os pobres, mais pobres (-11%). Todos querem o dinheiro, poder, enriquecer, e é desta forma que, quanto pior, melhor.

Esta é a lógica de mamon, ou o mundo do mercado. Essa lógica de mercado que tem por deus a mamon, é cruel pois impõe riqueza e poder em favor do sofrimento e pobreza. E os que adoram mamon querem, a qualquer custo, manter o status quo, a estrutura vigente que conspira contra a vida humana. A pandemia aflorou essa visão.

Dinheiro é espiritual.

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Tudo é espiritual, até dinheiro (pte.2) - I Tm 6.6-21

O Novo Testamento fala de fé em 200 versos, fala de salvação em 200  versos, mas ao falar de dinheiro há mais de 2 (dois) mil versos, que só perde para o tema reino de Deus. Isso me faz ter certeza que dinheiro é espiritual.

Hoje compreendo melhor o que é denunciar, que na verdade, é a essência do Evangelho de Jesus. Precisamos denunciar a injustiça social, a pobreza, o mercado, o dinheiro, a fome - senão, seremos seus colaboradores. Deus está interessado em nós, em nossa vida. Talvez, para quem é de carne e osso, sem fé, Deus não quer dizer muito - aliás, como o mundo pensa. Já no mundo "espiritual", pode até ser, mas não se preocupa com inflação, o preço do combustível ou o preço do pão. Mas para nós, seres vivos, humanos, que ainda não temos o corpo glorificado, necessitamos de tudo isso para nossa sobrevivência - agora, se Deus, que é Espírito, não tem nada a nos dizer sobre a nossa realidade (humana) ou aquilo que vivemos dia a dia, a nossa história (passado e futuro), então, Deus não faz nenhum sentido, aqui e agora, e fará sentido somente para o céu, depois da morte e no mundo espiritual, porque em vida, não tem nada a acrescentar. Infelizmente, este é o pensamento de muitos: que Deus é só para depois, o porvir, um mundo que não vivemos. Se pensarmos assim, o Evangelho não diz nada mesmo, é só para o outro mundo mesmo, porque aqui e agora, tenho contas a vencer no final do mês.

Isso ajuda a compreender porque o dinheiro é espiritual, porque precisamos dele, e é essa necessidade que faz com que muitos se tornem seus escravos.

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Tudo é espiritual, até dinheiro (pte.3) - I Tm 6.6-21

Vivemos num mundo estruturado, sustentado pela lógica de mamon, adorado no seu templo chamado "mercado". É por isso que muitas vezes cito neste Blog que devemos fugir da "Igreja-mercado". E como viver aqui, se somos discípulos de Jesus? Como viver neste mundo? Paulo nos dá caminhos. Alguém consegue ler a Bíblia e ver boas palavras, mas somente à luz de Cristo, com os olhos espirituais abertos, conseguiremos ler as entrelinhas. Olhar e ver além do que se vê.

No Evangelho, vemos que só há um Senhor, Jesus, o Cristo, e que não podemos seguir a 2 (dois) senhores. Mamon não é deus, ele é o dinheiro elevado à categoria de Deus, porque nem todo dinheiro é mamon, quero deixar claro. O homem pode transformar, na sua vida, o dinheiro em deus, rivalizando com nosso Pai. Mas Deus nunca deixou de ser Deus. Para os que creem e que não creem: dinheiro não é papel, ele "fala" conosco - é a raiz de todos os males! O papel é neutro, o valor do dinheiro e a sensação de poder, de satisfação e de superioridade que ele proporciona não - é maligno, diabólico. O que se intensificou nos dias atuais com o dinheiro transitando em forma de Pix, virtual, bitcoins, mercado pago, onde você não vê seu valor, e só compra, compra e compra.

Um copo de plástico no chão, por exemplo, não fala comigo - eu pego, jogo fora, e pronto. Mas um dinheiro jogado no chão, fala com você, te chama. Se eu passar e vê-lo, ele vai falar com você, chamar sua atenção. Provavelmente, alguém pisará nele, olhará para um lado e para o outro, vai agachar e pegar para si - o ditado não diz que achado não é roubado? Não para um cristão...

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Tudo é espiritual, até dinheiro (pte.4) - I Tm 6.6-21

Paulo nos alerta para a sensação que o dinheiro dá, de poder, o que na verdade, neste mundo com a lógica de mamon, dá poder mesmo. Muda o caráter, muda a visão. Com o dinheiro você compra, inclusive os homens/mulheres que vendem tanto a sua alma quanto seu corpo, e até o espírito. A grande Babilônia caiu - caiu o mercado, as almas e os corpos que eram comercializados - o dinheiro nunca é neutro. Ele dá poder, seduz, cativa e faz exigências. Jesus deixou claro que não poderemos servir a Deus e ao dinheiro, até porque, o dinheiro exige ser servido, quer e faz escravos, e ao cairmos em seu encanto, passaremos a viver de acordo com seus imperativos, porque ele é vivo, existe, e pode-se apaixonar loucamente por ele - concorda que jamais nos apaixonaríamos por um copo de plástico no chão? Tem gente que ama o dinheiro e o que ele proporciona nesta lógica babilônica, e se acha "gente de bem". Sempre digo que paixão é diferente de amor, pois quem se apaixona pelo dinheiro serve o deus errado. Tire da sua cabeça que o dinheiro não tem poder, que ele é neutro, porque ele é potente, a ponto de rivalizar com o nosso Deus. Dinheiro, quando é dinheiro, tudo bem, mas quando toma o lugar de Deus, é mamon.

Paulo nos diz também para ¹não estruturarmos nossa vida na lógica de mamon, na lógica do dinheiro. No texto, ao lermos "Mas é grande ganho a piedade com contentamento" (v.6), assim como Jesus, devemos nos contentar com o que temos. Tem o que vestir? Tem o que comer? Esteja satisfeito. Se tiver o suficiente, e fora da lógica de consumo deste mundo babilônico, sua vida será significativa, talvez não em abundância do que você quer, mas o que necessitamos e seus bens, serão suficientes. A vida não se resume naquilo que possui (bens).

A lógica do mercado de mamon consiste em ²consumir e possuir em abundância, o que quer dizer acúmulo de bens e sua substituição. Se possui um celular Nokia 6600, quanto ele vale em relação ao Motorola G9? O iPhone 5 nada vale perto do iPhone 12! Assim como seus sapatos, calças, blusas que, sem limites, vão se acumulando no compasso da moda que diz "o que" usar, e te faz sentir sempre insatisfeito porque há algo sempre novo, da moda, com forte marketing dizendo que se você não tiver este novo lançamento, você está fora, não pertencerá mais à sua tribo, não será aceito e perderá uma oportunidade - eis a lógica de mercado e consumo de mamon! Que sua vida não dependa das coisas que o dinheiro pode comprar. Tem o que vestir? Tem o que comer? Que bom.

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Tudo é espiritual, até dinheiro (pte.5) - I Tm 6.6-21

Aliás, esta relação da piedade (compaixão) com a alegria e satisfação, nos eleva à vida correta com Deus, contrária ao mundo, regido pela lógica do mercado e dinheiro. E o mercado sabe que Deus nos afasta destas coisas, a ponto de uma campanha de cartão de crédito criar o slogan: "Tem coisas que não tem preço. Para todas as outras, existe o cartão de crédito". Deixa claro que este mundo acredita que há coisas, sim, que não conseguiremos comprar - não edificaremos nossa vida sobre estas coisas. Ok. Mas o que estiver á venda, use o cartão de crédito deles. O dinheiro é espiritual, como sempre disse. Mas é um deus cruel. 

Digam ao dinheiro que ele é só dinheiro - coloquem-no em seu devido lugar. Costumo dizer em casa que eu uso o dinheiro, o dinheiro não me usa. As pessoas querem ficar ricas, acumular bens e coisas (v.9,10) e assim, permitem que ele se torne mamon. Quem é o Senhor da sua vida? Deveria ser Jesus, não mamon. Jesus é bendito, Senhor dos senhores, Rei dos reis, imortal, habita em luz inacessível. Você, que é servo de Cristo já não é mais escravo porque optou em servir, e o faz por amor e Graça, se fosse escravo serviria contra sua vontade, ficaria, mas se pudesse, fugiria. Assim também é em relação ao dinheiro. Estruture sua vida sem confiar no dinheiro (v.17), e não será arrogante, presunçoso, pois os que confiam em mamon, e têm dinheiro, só tem dinheiro, nada mais. Quando este acabar, não sobrará nada. Nossa esperança está em Deus. Veja  a mobilidade social: pobres continuam pobres. E Jesus, quando disse que aos pobres sempre teríamos ao nosso lado, não é por que Ele determinou isso, mas devido ao nosso duro coração. E afinal, quem quer ser pobre? Assim, o dinheiro ganha força. Como dissemos, no início, muitos ganham dinheiro com esta pandemia. Haviam ricos, que nem se preocupavam com o final do mês, mas que hoje fecharam seus estabelecimentos. E os que pouco tem, perguntem-se: Onde está a sua esperança? Pior que tudo isso, são as pessoas que tinham dinheiro antes da pandemia, e estão com medo de perder tudo e ficarem pobres. Triste. Pobre é doença? Não, mas para estes, que confiam em mamon e sua lógica de mercado, é tudo. Idolatram o dinheiro, muitas vezes acima da vida, do casamento e dos filhos. E ainda há os que mantiveram seus empregos, continuaram a dar roupas usadas e rasgadas para se sentirem "de bem" com Deus, estocaram caixas de álcool-gel até faltar no mercado (e fazem isso com alimentos e outras coisas). Estes, também colocam o dinheiro como ídolo e deus. A sua vida está estruturada fora da lógica de mamon?

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Tudo é espiritual, até dinheiro (pte.6) - I Tm 6.6-21

Ao colocarmos o dinheiro em seu lugar, desfrutamos em tempos de vacas gordas, mas sabemos repartir em tempos de vacas magras. Desfrutar é legítimo, comprar algo para o seu filho, com o fruto do suor do seu rosto, é bênção de Deus, e dEle é a boa dádiva, nos traz satisfação e sentimos gratidão. Porém, que os ricos pratiquem o bem e repartam (v.8), pois muitos não tem o que comer ou o que vestir, e na verdade, deveriam ser sustentados justamente por quem tem maior poder aquisitivo, quem pode "doar", mas que sem o Espírito Santo, jamais conseguirão. Portanto, seja generoso.

A Bíblia fala sobre abundância e escassez, e hoje em dia, as pessoas não percebem que os tempos de vacas magras e gordas, exatamente como no AT, continuam. Há condomínios fechados mas há favelas e cortiços. Se somos seguidores de Jesus deveríamos doar, partilhar. Não escondo que, o dinheiro que devemos devolver a Deus, como dádiva pelo que nos sustenta, em tempos de pandemia, deve ser doado para ajudar a suportar os que mais necessitam, porque a Igreja alcança alguns, não todos. Não precisa passar pelo caixa da Igreja para só então chegar aos necessitados - e que isso não te impeça de fazer sua oferta.

Já presenciou uma guerra? Então, não sabe o que é. É uma convicção: Se não perdeu poder aquisitivo durante a pandemia, não viveu a pandemia. Não chorou com os que choraram, nem meteu a mão no bolso para doar, não sabe que 1 pacote de arroz (5kg) custa R$ 25,00, portanto, não passou pela pandemia. Só existo porque o outro existe, sozinho, não tenho valor. Deus me livre da maldição de ouvir do nosso Senhor: "Onde está o teu irmão?" (Gn 4.9)

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Tudo é espiritual, até dinheiro (pte.7) - I Tm 6.6-21

Como o Itaú doou 1 bilhão de reais para combater a pandemia? Esse dinheiro estava guardado, sendo usado para tantas outras coisas, enquanto o pobre passava fome? Sim, porque a fome não é oriunda da pandemia. Onde estava este dinheiro? Parado na conta? No mercado financeiro? No mercado? Só doou devido à pandemia, e se não fosse assim, não doariam. E quanto milhões estão parados, de tantas empresas? Quanto dinheiro existe ainda, destinado às indústrias bélicas, da guerra, dos medicamentos, que poderiam combater a fome no mundo? Pior, e no seu bolso? Quanto tem em sua posse agora que ainda não saiu e só por isso, está sobrando? Alguém foi ao mercado fazer compras no supermercado, e encheu outro carrinho, igual ao seu, com as mesmos produtos e os entregou a alguma família onde o pai está desempregado devido à pandemia, ou onde alguém morreu de COVID-19 e a família sucumbe? 

Desculpe te constranger, mas devemos nos perguntar: Somos mesmo discípulos de Jesus? Não é possível num mundo como vivemos hoje, consumir e administrar do mesmo jeito nossa economia e ainda dizer que somos cristãos. Jesus jamais faria isso. O dinheiro é algo que pode se tornar um ídolo e promover a destruição e morte, do único ser que pode nos levar à presença de Deus: o próximo. O único Senhor ao qual servimos, é Cristo. E o único meio de servir a Cristo é abençoar o próximo. O contrário também é verdadeiro.

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